Novo Cangaço série da Band – De Lampião à falta de pão

adilson medeiroa das neves A série especial Novo Cangaço, exibida no Jornal da Band, mostra uma realidade distante da minha, porém é um pesadelo para muitos. O repórter traz imagens fortes dos ataques terroristas e da população que se torna refém e escudo humano. Nas imagens gravadas pelos moradores das cidades que são alvo dos bandidos, percebe-se o medo e o desespero. Mesmo muito bem produzida, o fato dessas reportagens irem ao ar, não vai impedir que esses grupos parem de atacar pequenas cidades do interior. A Rede Bandeirantes está fazendo sua parte de mostrar o que está acontecendo, mas o que deve ser feito para resolver, ou pelo menos diminuir esses atentados? Nós como acadêmicos e profissionais da área não conseguimos deter sozinhos a ação dos bandidos, mas se houver um trabalho em equipe talvez seja possível. Para quem vive essa realidade a única pergunta que fica é “até quando isso irá acontecer?” ou ainda “até quando estaremos vivos?”

Lampião era sujeito valente. Sujeito homem. Sujeito do seu destino. Lampião fez escola e criou discípulos. Para muitos, foi o Robin Hood do sertão.
Junto com Maria Bonita, deu bossa nordestina a Romeu e Julieta, obra mais famosa e dialética de Shakespeare. Lampião virou ícone, ou como vemos hoje, um meme daquela época.

E saindo da visão romântica de um mártir, temos um criminoso que praticou barbáries no sertão, e que como tal, não deveria servir de exemplo, ou no mínimo, um exemplo do que não ser ou seguir.
Mas em terras Tupiniquins não é bem assim que as coisas acontecem.

Uma nova modalidade de crime vem causando alarme e preocupação nas cidades do interior nordestino. Criminosos fortemente armados em grandes bandos assaltam bancos, fecham entradas e saídas de cidades, fazem inúmeros reféns, praticam tortura física e psicológica, depredam patrimônio público, coagem a polícia e desenham um novo capítulo de selvageria nos dias de hoje, tal qual Lampião fez no começo do século passado.

Chamada de “Novo Cangaço” essa nova modalidade de crime, dá nome também a uma série de reportagens feitas pelo Jornal da Band onde é mostrada a forma cruel e violenta de como esses assaltos são feitos e as sequelas que ficam nas vítimas.
O que mais pode ser notado, além é claro da insegurança que está clara, é a falta de perspectiva na resolução do problema e punição dos acusados.
A questão é muito mais ampla do que se pode imaginar. Se analisarmos a fundo o perfil dos suspeitos, teremos uma grande maioria de pessoas sem estrutura familiar adequada, marginalizados da sociedade, sem o mínimo grau de instrução e formação escolar.

Parece clichê dizer que o problema é a falta de educação. Mas será que se houvesse maior preocupação e investimento em educação teríamos tanta violência. A resposta é simples e curta. Não, não teríamos.
Basta observar países desenvolvidos que investem fortemente em educação e têm baixíssimas taxas de violência, exceto por motivos psicológicos e sociopatas.

A falta de educação é a grande geradora dos problemas sociais dos quais tanto se reclama. Não tem preocupação, não há investimento adequado e nem valorização dos profissionais da área. Baixos salários, profissionais mal aproveitados e, inclusive mal qualificados, falta de estrutura física nas escolas, e algo que impressiona – chega faltar até merenda, merenda essa, que por vez pode ser a única refeição digna no dia do aluno.
Manifestações questionando sobre onde foi parar a verba da merenda tomaram o cenário midiático exigindo respostas. Uma coisa absurda de se pensar – desviar dinheiro de comida para crianças.
Greve dos professores e demais funcionários virou rotina acadêmica, tamanha falácia em que se encontra a educação.

Diante de um governo que ao invés de injetar mais dinheiro e incentivo, retira, desvia e usurpa, fica claro que o problema é muito mais sério e de difícil solução do que se imagina. Sem conhecimento, fica difícil até para escolher os representantes no governo e os problemas se intensificam.

Quem sabe se os acusados forem julgados pela nossa justiça tão lenta, quem sabe se ficarem de fato presos, quem sabe se tiverem a oportunidade de estudar dentro de suas celas, caso essas provenham um mínimo de dignidade e direito humano, esses acusados possam pegar um livro de história, literatura ou quiçá sociologia e ver que Lampião não foi um exemplo a ser seguido, embora seu discurso de tirar dos ricos e dar aos pobres fosse bonito, os meios pelos quais foram feitos não são legítimos e apenas geram mais violência e mazelas.

No final de tudo, faltou o pão, faltou educação, e o ciclo continua.